Chegou o dia em que descobri que não era o tempo ou a paciência que me faltava, nem a real consciência do que estava acontecendo. Era mais simples ainda. Não como se as coisas passassem rápidas demais e despercebidas, mas como quem encara todas elas com a mesma frieza e se decepciona; e o mínimo de sentimento que algumas delas despertavam era reforçado até o máximo deleite. Porque não é possível que a vida e suas coisas sejam só isso. E não é.
E é bem complicado, essa agudez de olhar, essa frigidez de alma. A gente pensa que só de ter consciência disso já muda tudo, ou que uma constatação apenas muda tudo, como num filme, mas a matéria que compõe os pensamentos e as pessoas é muito mais sólida; mexe-se uma peça, e o que temos é um departamento com os móveis rearranjados. É cansativo. É jogo de lógica.
Eu vou ter que mudar quarto por quarto, setor por setor, usar um pouco de feng shui dessa vez, sei lá. A sensação é a mesma de exercitar músculos e esticar os tendões. É um exercício de alma, de disposição.
Ou é preciso um laxante espiritual pra descarregar tanto ceticismo, tanta rigidez, tanta bagaça...