11 - Eu quero tudo de novo

Desde o começo, com todos os podres, as viradas do karma, os turning points e tudo o que veio em anexo. Quero emoldurar esses anexos, porque penduricalho sempre despenca no caminho.
Quero jogar o Nietzsche fora e ficar com o Eterno Retorno. Eu quero muitas coisas, eu sei, e ainda que não seja sensato espelhar o futuro no passado eu só posso contemplar. Minhas dores e delícias.

10 - Eu queria destruir o prestígio de certas carreiras

Só porque é o que todo mundo quer não significa que é bom. E muito pelo contrário, quanto maior o desenvolvimento tecnológico envolvido, exige-se mais politicagens absurdas e hipocresias no que diz respeito à verdadeira finalidade daquela profissão.

9 - Eu quero aprender a cozinhar

Porque existem realmente poucas coisas no mundo que se pode produzir e fazer com que sejam parte do teu corpo depois. Nem tudo é sensato colocar para dentro.
E algo que pra ser produzido exige concentração e descarrega sua mente de qualquer problema só pode ser algo especial.

8 - Eu quero aprender a poupar minhas convicções de más experiências

Até onde pude experimentar, sei que cada pessoa possui um efeito em nossa personalidade. Umas mais do que outras, é verdade, depende do tamanho da abertura que lhes dedicamos e da intimidade que lhes permitimos assumir.
Talvez as pessoas deixem de acreditar na gratuidade do ser humano cedo demais por ter más experiências, e por isso esquecem que a sinceridade, o gesto e o cuidado com as palavras são essenciais para as relações humanas. Deixe-as livres como devem ser, para que transitem por sua vida sem interferir nas suas convicções. E tudo bem se um dia alguém lhe convencer a mudá-las; mas é que parece que sempre que presencio uma má experiência, tenho vontade de testar exatamente o oposto da próxima vez e jogar tudo o que se assemelha àquela tentativa pro espaço.
Acho que era isso que um magro mas grande amigo tentava me ensinar, e só agora posso perceber. A maleabilidade da vida, a transcendência dos homens as suas experiências (e também sua transparência diante das mesmas). Mas à parte de toda a flexibilidade de pensamento e comportamento, a importância da força de suas convicções, que não se deixam moldar pelo acaso, pela ocasião ou pelos desejos que governam sua paz.

7 - Eu quero me dedicar a uma paixão

A existência de uma pessoa se torna vazia quando não tem ao que se dedicar. Aquela sensação infantil de que o mundo lhe serve de playground não pode durar muito tempo, porque mesmo que não tenha consciência disso, até a mais ingênua criança está em busca de algo ao qual expor anos de sua vida. A gente precisa disso, para que a noção de vida, tempo e existência não nos atinja a ponto de apavorar o mais sensato dos homens e desviá-lo de seu curso.
Eu acho que a gente passa a vida toda se dedicando a uma paixão, ou pelo menos procurando uma, e isso já é suficiente para preencher a sua alma de significado. Eu existo. Eu existo por um motivo. Logo, tenho o direito de continuar existindo.
Eu sinto falta disso, porque gostar de tudo é o mesmo que gostar de nada, e aquela coisa pela qual se poderia dar a vida passa despercebida. Ainda que se arrisque dentre uma das opções que lhe chama atenção, não é garantia de que é uma paixão duradoura. Às vezes a gente confunde sensações com sentimentos, e aquilo pelo qual você reorganizou sua vida para lhe dar espaço talvez pereça antes do fim. E a coisa em si, passa, ronda, ou até mesmo já passou despercebida pelos seus olhos. E nessa hora, dizer que se tentou não é consolo algum. É triste não ter esse ímpeto de se jogar, se dedicar, amar até a última gota; é triste não gostar de nada, ou de tudo. É o abismo da existência.

6 - Eu quero uma garantia de que um dia vou ter um final feliz

Toda vez que tenho a oportunidade, tenho vontade de pôr tudo a perder. Eu aprendi a não gostar de minhas vitórias para não chamar a atenção. Só quando posso entregar o jogo de all-in a vitória tem algum gosto pra mim.
Vezes por outras termino sem nada, orgulhosa de ter aberto meu jogo na mesa, e culpo a sorte pelas cartadas inferiores. Não consigo, não sei blefar; a satisfação de entregar tudo é justamente por saber que tenho algo a oferecer. Misturo amor com política, com sorte e jogos de azar. Pra mim, amor e jogo são a mesma coisa, e não existe isso de ter sorte em ou ou noutro. É tudo a mesma coisa. E se eu tiver a oportunidade, eu aposto alto, aposto tudo.
Mas hoje, percebo que tenho muito mais do que antes, e cada vez que o calor da mesa clamar pelo meu all-in, haverá partes de mim que não conseguirei restituir. Se eu pudesse ter uma garantia, ao menos, de que tudo vai dar certo no final quando me entrego a quem tenho vontade. Se eu pudesse saber se essa é uma boa estratégia, eu não precisaria nunca deixar a mesa.

5 - Eu queria que todo acesso à cultura fosse gratuito

Porque já é difícil o suficiente saber que uma vida inteira não é suficiente para se ler todos os livros, ver todos os filmes, ir todas as peças e exposições de sua cidade, escutar todas as músicas...

4 - Eu quero guardar comigo as belezas do mundo

Outro dia parei pra pensar, tem coisas que só dá pra ver tão de perto ou tão bonito através das lentes de uma câmera. Trazer o detalhe tão pertinho que o todo já não importa. Aquele detalhe é a beleza do mundo inteiro e o tema sobre qual todos os raciocínios serão induzidos a tratar ao olhar essa foto.
Na fotografia a gente conta uma mentira 10 vezes mais real do que qualquer homem, porque é também uma evidência, ainda que meia-verdade.
Eu queria sempre ter uma câmera na mão ao andar por aí, pois é tanta foto que a gente perde... tanto sorriso bonito...

3 - Eu quero fazer todos os cursos da universidade

Não que eu aprove essa coisa de ser o dono do saber, que fatalmente conhece tudo pela metade, mas é que parece que escolhendo um curso só se deixa tanta coisa escapar! Tantas pessoas, tantas chopadas, tantas viagens, tanto conhecimento, tantos professores, tantos fatos, tantos cantinhos escondidos do campus, tanto horário de almoço, tanto segredinho, tanto... tanto... tanto...

2 - Eu queria que toda decisão fosse dotada de certeza

Caso o contrário não é uma decisão, é uma negociação de benefícios.
Tudo seria mais fácil se todo arbítrio fosse tão acentuado a ponto de só se cometer erros conscientes ou se vencer intrinsecamente. O que dificulta tudo é o meio-termo, e a meia-decisão.

1 - Eu queria não começar quase tudo que falo com 'eu'

É um hábito deplorável de quem tem muito pouco a dizer.
Se a comunicação é rudimentar assim, talvez eu devesse passar a me expressar por metáforas, alegorias, ou pinturas rupestres mesmo. Deve ser interessante a tentativa de falar 'eu' por meio de desenhos... Mas acontece.
Será que existe algum narrador-personagem cuja estória não seja sobre ele, assim como nem todo eu-lírico é o seu autor? Tal como dizem que alguns narradores-observadores são a personificação enrustida do escritor, que tece a carapuça mais conveniente pra se expressar?
Acho que as coisas só começam a complicar realmente quando o 'eu' que vos fala não é 'eu', é outro. Porque já é difícil o suficiente adivinhar quando as pessoas mentem, que dirá identificar quem está dizendo o que. E aí sim, muito mais coisas serão introduzidas pelo egocêntrico pronome 'eu'.

Comunicar-se é um hábito deplorável. Mesmo sabendo que delimita muito o que a gente pensa, nos atemos apenas ao que nos é expresso de alguma forma, sem nos infiltrarmos além do código e da mensagem. Porque achamos que há coisas que não devem ser demonstradas e valorizamos muito o que somos capazes de formular. Qual o propósito de desenvolver tanto a comunicação, se não conseguimos retomar o simples e elementar? Comunicar-se é um egoísmo, ainda que não se use o 'eu' o tempo todo.